O sonho da noite passada me rendeu a visão de um garoto. Ele sangrava amor. E fugia. E os corpos apagados nos quais ele esbarrava sem pedir desculpa não reparavam porque o amor não é como o sangue – não mancha a roupa. Os gritos mudos de socorro não lhe saíam da boca cada vez mais suja de amor. As pernas não eram mais pernas, eram antes pedaços de dor numa marcha desvairada pelos becos. Os olhos ferozes deixavam de o ser quando os corpos desalinhados os escondiam do mundo. O medo era, nesses dias, a força dos ventos e dos mares que ele traçava nas ruas sem que ninguém os sentisse no rosto. Porque ele sangrava amor e fugia. Colecionava na carne os gumes dourados que escreviam canções de saudade às lâminas que o corpo consumia. E entre danças na corda bamba do medo, ele misturava-se na multidão que, talvez, fugia também. No virar das esquinas, por entre os fios de cabelo negro, ele olhava para trás certificando-se de que ninguém o seguia. O que ele não sabia é que estava sendo perseguido por dentro, nunca por fora.
O garoto do sonho era Eu.
Por: @PequenoRyan

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